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terça-feira, 17 de setembro de 2013

LA AMARA VITA*

*A amarga vida

De doce já basta a vida. A frase elaborada pelos criadores da Cervejaria Seasons está estampada no rótulo de sua cerveja mais famosa, a Green Cow IPA. Uma das American IPAs mais deliciosamente amargas fabricadas no Brasil, a cerveja da “vaca verde” trouxe essa reinterpretação da popular frase para repassar a todos sua ode e amor ao lúpulo, o grande responsável em trazer o amargor às cervejas. Hoje em dia cada vez mais cervejarias brasileiras investem em cervejas mais lupuladas e amargas, a fim de agradar ou fomentar um público em crescimento, os chamados lupulomaníacos. Muitas dessas cervejas, dependendo do estilo, podem entrar também na categoria das Extreme Beers. Além de bastante lúpulo essas também devem ter uma boa base de maltes, a fim de suportar e quase equilibrar todo esse amargor, apresentar algumas notas doces e contribuir para um teor alcoólico mais alto.

rótulo da Seasons Green Cow IPA e sua frase: de doce já basta a vida


A Noi Amara é uma das mais novas criações a entrar nesse rol de cervejas bem lupuladas. Do estilo Imperial/Double IPA ela possui 100 IBUs (unidades de amargor) e 10,5% de teor alcóolico. Na sua receita foram usadas cinco variedades de maltes e dois tipos de lúpulos, o norte americano Summit (durante a fervura) e o australiano Galaxy (na etapa do dry hopping). Os responsáveis pela sua criação foram o famoso cervejeiro carioca Leonardo Botto e o mestre-cervejeiro da Cervejaria Noi, Gilmar Gutbrodt. A ideia da cervejaria é lançar todo ano ao menos uma nova receita. A próxima terá em torno de 14% de teor alcoólico, mas com o estilo ainda mantido a sete chaves. Antes disso teremos ainda uma outra boa novidade, a cerveja München Hell do Leonardo Botto. Antes fabricada pela Cervejaria Röter (Barra do Piraí/RJ) e sumida já algum tempo, ela será agora produzida na Noi em comemoração às festividades da Oktoberfest. Dentro em breve a teremos disponível novamente no mercado.



Três semanas atrás foi realizado um evento gastronômico de cervejas Noi harmonizadas com os pratos da casa. A harmonização foi comandada pelo sommelier de cervejas José Raimundo Padilha. Dentre variados pratos e cervejas escolhidas, a última selecionada para fechar a harmonização foi a Amara. E não apenas combinando com um tipo de comida, mas com o prato principal e a sobremesa. Batizado pelo Padilha de Double Pairing (harmonização dupla), a ideia foi mostrar a versatilidade que a cerveja e o estilo ofereciam para a gastronomia ao harmonizar tanto com comidas salgadas quanto pratos doces. 

Noi Amara + Fran Rack de javali e chutney de damasco

Noi Amara + Key Lime 


Tive a oportunidade de conseguir uma amostra da garrafa da Amara antes de ser lançada. Essa versão que provei em casa não foi pasteurizada, portanto está mais semelhante com a versão servida on tap do que estaria a versão engarrafada, ainda a ser lançada. Segue abaixo minhas impressões sobre ela:

Noi Amara - Imperial/Double IPA - 10,5% ABV
Aparência cobre intensa a avermelhada, límpida e até brilhante.
Espuma de cor bege, média formação, boa criação de bolhas (cremosa), alta retenção, queda lenta que sujou bem os lados.
Aroma lupulado com média a média-alta intensidade e muito fresca. Notas frutadas que lembraram cítrico de maracujá e grapefruit, floral bastante perfumado, condimentado puxado para o herbal que remeteu um pouco a grama e um fundo resinoso de pinho bem suculento. O álcool monstruoso foi muito bem inserido e ficou imperceptível. O dulçor dos maltes veio bastante encoberto e com percepção pouco aparente. Mas notas carameladas e até tostadas apareceram quando esquentou mais, graças a lupulagem que também assentou um pouco.
Sabor começou frutado com as notas cítricas já antevistas no aroma. Seguiu com o amargor aparecendo como uma pancada, bem agressivo e atraindo notas condimentadas puxadas para o herbal e o picante/temperado. Mais baixas vieram notas florais e resinosas bem alinhadas, certeiras. Sensação tostada que com o frutado virou uma laranja queimada. Antes de terminar o gole, o amargor perdeu um pouco a potência e o frutado cítrico retornou mais.
Corpo médio-alto e cremoso. Carbonatação média e crocante. Álcool aparente que surgiu misturado com o amargor e trouxe sensação acalentadora.
Final seco. Retrogosto amargo, herbal e com persistência de mato. Leve álcool quente.

O aroma está irrepreensível, fresco e bastante intenso. A persistência do amargor poderia ter sido um pouco mais domada para ficar mais afiada. Agradará em cheio aos lupulomaníacos por ser amarga até doer (seu nome não é em vão), chegando ao ponto de até estes pedirem arrego. Cerveja para os fortes.


O registro da cerveja junto ao MAPA saiu semana passada. Quem for de Niterói já pode apreciá-la no bar da fábrica, onde está sendo servida desde 6ª feira. Quem mora no Rio pode prova-la no Bar do Botto, plugada na torneira da casa desde o domingo, aliás a ideia é tê-la sempre na casa. Por enquanto ela está disponível nos bares apenas em chope. Já a versão em garrafas de 600 ml vai sair em breve, provavelmente daqui a 15 dias.

Apenas doze barris foram embarilhados na primeira leva e o restante foi para as garrafas. Hoje ao longo do dia foi realizada a segunda brassagem da cerveja na fábrica da Noi, novamente contando com a presença do Leonardo Botto. Nem bem a cerveja saiu e um novo lote já está sendo produzido. É a prova da boa aceitação que a cerveja está recebendo e a certeza que o público mudou, mais afeito ao amargor e talvez um pouco enjoado da mesmice doce do dia-a-dia. De doce já basta a vida, vida longa ao amargor!


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

30 ANOS, 3 CERVEJAS - "A" BRASILEIRA

No dia 07 de janeiro degustei três cervejas que entrariam com sobras em qualquer ranking das melhores cervejas do mundo. Elas foram as minhas escolhidas para comemorar meus 30 anos de idade. A ideia posterior seria fazer uma postagem individual falando sobre cada uma delas. A promessa acabou sendo cumprida apenas parcialmente, com a postagem sobre a Westvleteren 12. Faltou falar das demais: Goose Island Bourbon County Brand Stout (safra 2007) e Bamberg Biertruppe Vintage nº 1.

A Bourbon County safrada eu deixarei para falar em outra postagem, vamos primeiro falar da Vintage nº 1, que até o momento considero não apenas a melhor cerveja que bebi esse ano, como também a melhor cerveja que já bebi na minha vida.

Tropa da cerveja: André Clemente, Alexandre Bazzo, Eduardo Passarelli e Leonardo Botto - Fonte: bottobier.com.br


O grupo biertruppe (“tropa da cerveja” em alemão) surgiu da união de quatro amigos aficionados por cervejas especiais com vontade de lançar estilos inéditos ou pouco difundidos no mercado brasileiro. Estes entusiastas eram “apenas” grandes especialistas em se tratando de cerveja no Brasil: André Clemente, designer gráfico autor de vários rótulos de cervejas; Alexandre Bazzo, cervejeiro e proprietário da Cervejaria Bamberg, de Votorantim/SP; Eduardo Passarelli, atualmente sócio da filial paulista do Aconchego Carioca; e Leonardo Botto, cervejeiro e agora dono do Botto Bar, no Rio de Janeiro. As ideias dos quatro somadas resultaria em edições limitadas produzidas na Bamberg. Essa parceria rendeu o lançamento de três cervejas: Tcheca, Saint Nicholas e a já comentada, Biertruppe Vintage nº 1. Infelizmente nenhuma delas é mais produzida.

A Tcheca foi o lançamento inaugural do grupo. Do estilo Bohemian Pilsener, a cerveja apresentava 5,4% de teor alcoólico e notas típicas do estilo, principalmente do tradicional lúpulo tcheco Saaz. A escolha partiu da vontade de criar uma cerveja Pilsen que fosse o oposto do propagandeado pelas cervejas de massa. O resultado final foi plenamente satisfatório. Muitos consideraram a melhor opção do estilo disponível no Brasil, incluindo os exemplares importados, alguns chegando avariados por causa do transporte. Tive a felicidade de prová-la quando lançada em 2008, mas confesso que a pouca memória não me permitiu recordar com exatidão sua sensação, do pouco que lembro é que era boa e refrescante.

Em recente ida a São Paulo, numa visita ao bar Aconchego Carioca, pude reencontrá-la apenas visualmente, não no copo. Uma simpática funcionária da casa me mostrou a garrafa que fica decorando a prateleira localizada atrás do balcão onde ficam as chopeiras. Provavelmente estampada como um troféu pelo seu orgulhoso criador, Eduardo Passarelli.

Imagem: bottobier.com.br
A outra produzida em seguida pela tropa foi a Saint Nichollas – já essa eu infelizmente nunca bebi – uma cerveja feita especialmente para o Natal de 2008. A inspiração foram as clássicas Christmas Ales belgas e a escolha do estilo surgiu da escassez de Belgian Blond Ales produzidas no Brasil. Ela possuía 7% de teor alcoólico, adição de açúcar e aveia, além do uso de um blend de cinco cepas de leveduras belgas, das variedades utilizadas em abadias e monastérios trapistas.

O último lançamento deles foi o rótulo que motivou essa postagem. Podemos dizer que foi a mais trabalhosa de todas, mas não apenas por causa da sua produção. A Biertruppe Vintage nº 1 já começou audaciosa por ser uma cerveja maturada em barris. Parte da cerveja maturou por cem dias em barricas de carvalho antes usadas para repousar outras bebidas da marca Salton, como vinho tinto e brandy. Era uma English Barleywine com potentes 9% de ABV graças a um blend de duas leveduras inglesas. Um projeto cercado de acuro e que foi laureado por uma das grandes sumidades do meio cervejeiro mundial, o grande Randy Mosher.





Até aí ocorreu tudo bem, só depois de produzida a cerveja que os problemas começaram. O MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) de São Paulo não liberou seu registro, pois não aceitavam o uso do nome “vintage” no rótulo. Diferente dos vinhos, por exemplo, eles não concordavam que a cerveja tivesse características que justificassem o uso do termo, principalmente no que tange a data da validade, que obrigatoriamente deveria ser mais curta. Problema parecido com o da Cervejaria Colorado, que na mesma época também sofreu para registrar sua Vintage Black Rapadura. O MAPA implicou com o nome “rapadura”, uma denominação controlada. Os criadores então o tiraram do rótulo, assim como o termo “vintage”, já esperando exigência semelhante à sofrida pela Biertruppe. A cerveja foi rebatizada de Colorado Ithaca, uma homenagem à ilha da obra Odisseia, de Homero, como uma metáfora à luta que tiveram ao registrar a cerveja. Já a Vintage nº 1 não teve a mesma sorte, não conseguiu ser registrada. Sua venda ficou restrita a poucos afortunados, comercializada pelos criadores de forma discreta em selecionados pontos de venda.

A minha eu consegui comprar em janeiro de 2011 na loja Mamãe Bebidas, por 21 reais. O arrependimento foi de não ter comprado uma caixa dela. Quando quis comprar mais já tinha esgotado. Fui paciente e esperei dois anos para prova-la, ciente que a guarda só traria benefícios. Vencida desde 11/06/2011, degustar essa produção que foi feita com tanto acuro e labuta, deixou a tarefa mais emocionante. Emoção que curiosamente foi seguida de frustração, pois esqueci completamente de salvar minha análise sensorial digitada no programa Word. Tive que reescrever tudo de memória. Como num quebra-cabeça com peças perdidas fui juntando parte por parte do que lembrava e as sensações foram mais ou menos essas:

Bamberg Biertruppe Vintage nº 1 - Barleywine - 9% ABV 
Aberta a garrafa o ar impregnou com a explosão de madeira e carvalho. 

Cor castanha escura e fechada. Viscosa e com lágrimas escorrendo nas laterais.
Espuma de baixíssima formação com escassas bolhas disformes (aparência de refrigerante sem gás), retenção efêmera e final sem deixar nem o halo (flat).
Aroma de madeira de carvalho, baunilha e flora encrostada do barril. Ésteres frutados e doces com alta intensidade, suculentos e sem enjoar, como passas, ameixas secas, tâmaras e figo seco. Toque de vinho do Porto com sensação acre e adstringente. Notas intensas de caramelo, toffee, melaço, sensação xaropada. Notas torradas e defumadas, com esfumaçado de tabaco, rapé e cinzas bem leve. Chocolate e cacau bem definidos e café lembrando grãos. Álcool presente com uma leve acetona, pouco agressivo, mas atraente e bem inserido. Leve notas de frutas vermelhas.
Sabor similar ao aroma e também com cítrico e amargo de toranjas. Suculento coco queimado. Sensação apimentada e alcoólica. Sementes secas como nozes, amêndoas e castanhas cozidas.
Corpo sedoso e macio, passeando na boca. Carbonatação nula.
Final seco e alcoólico. Retrogosto doce e amadeirado.

Sensação final foi de uma cerveja com traços de um destilado, como por exemplo, um bom conhaque. Única, extremamente complexa e que certamente agradou plenamente a todos que puderam provar.

Para atiçar ainda mais a vontade dos saudosistas, ano passado alguns membros da trupe postaram nas redes sociais dois barris remanescentes da produção da Vintage nº 1, que ainda repousavam na Cervejaria Bamberg. Resultado de três anos de maturação no carvalho, essa versão não foi comercializada, mas engarrafada apenas para consumo dos criadores com seus amigos.

Resta apenas torcer pelo lançamento futuro de uma Vintage nº 2 e que até lá as resoluções que tratam sobre cerveja estejam mais evoluídas. Torcemos então por um MAPA de mente mais aberta.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

PROMOÇÃO DE ANIVERSÁRIO E AGENDA DE SETEMBRO

Esse mês o blog faz aniversário de 1 ano de vida e como já anunciado uma promoção foi feita na fanpage d'A Perua no facebook. O sorteio será nessa 5ª feira (12/09) onde o participante concorrerá a 1 (uma) passagem gratuita para a Excursão Cervejeira organizada pelo sommelier de cervejas Gustavo Renha. No passeio será feita uma visita a Cervejaria Röter e ao Penedon Brew Pub.

Promoção do blog A Perua

Excursão Cervejeira do Gustavo Renha


Para maiores informações sobre como concorrer basta acessar o link:

Participem que ainda dá tempo!

E segue abaixo a atualização da agenda divulgando a Excursão Cervejeira e demais eventos que serão realizados nessa segunda semana de setembro:

DEGUSTA IPA – Boteco Carioquinha – Apresentação Salo Maldonado
Data: 12/09/2013
Hora: 19h
Local: Boteco Carioquinha – Rua Gomes Freire, 822 – Lapa – Rio de Janeiro – RJ
Investimento: R$ 59 (cinco rótulos e duas harmonizações)



WORKSHOP OFF-FLAVORS NA CERVEJA – Gabriel Vasques
Data: 14/09/2013
Hora: 10h
Local: Adega Boulevard – R. Inácio Lustosa, 250 – São Francisco – Curitiba – PR
Investimento: R$ 150 (degustação de 24 off flavors)
Maiores informações: gabriel.vasques@gmail.com



CURSO BÁSICO DE CERVEJA ARTESANAL – Sinnatrah Cervejaria-Escola
Data: 14/09/2013
Hora: 10h às 17h
Local: Sinnatrah Cervejaria-Escola – R. Cajaiba, 157 – Pompéia – São Paulo – RJ
Investimento: R$ 330 *R$ 300 para duplas ou grupos (apostila, degustação, café da manhã, lanches, produção dividida entre os participantes)
Maiores informações:



EXCURSÃO CERVEJEIRA – Cervejaria Röter e Penedon Brew Pub – Sommelier de Cervejas Gustavo Renha
Data: 14 ou 15/09/2013
Hora: 14h (sábado) ou 15h (domingo)
Local: 
Cervejaria Röter – Estrada Mendes-Barra do Piraí, s/nº, Km 04 – Barra do Piraí – RJ
Penedon Brew Pub – Av. Casa das Pedras, 942B – Penedo – Itatiaia – RJ
Investimento: R$ 350 *3x no cheque (visitação cervejaria e degustação; visitação brewpub, almoço e degustação; sorteio de brindes)
Maiores informações: gustavorenha@gmail.com



JANTAR DE COMEMORAÇÃO DE 1 ANO – Aconchego Carioca, Jardins-SP
Data: 16/09/2013
Hora: 20h
Local: Aconchego Carioca – Al. Jaú, 1372 – Jardins – São Paulo – SP
Investimento: R$ 160 (bebidas e serviço inclusos)
Maiores informações: admsp@aconchegocarioca.com.br


terça-feira, 3 de setembro de 2013

ROTEIRO CERVEJEIRO EM MONTEVIDÉU, POR GUSTAVO RENHA

Essa postagem foi escrita pelo sommelier de cervejas Gustavo Renha, sobre sua visita a Montevidéu, Uruguai:

Fala galera!

Aproveitei as férias de julho para viajar e também conhecer novas culturas cervejeiras. Peguei uma promoção de milhas e fui para o Uruguai, mais precisamente Montevidéu, capital. Pesquisei na internet antes de ir e não achei muita coisa diferente de Patricia, Zillertal e Nortenã, mas tinha certeza que se procurasse com carinho ia achar cervejas mais maltadas e lupuladas. E por sorte divina eu estava certo.

Tive a oportunidade de conhecer os rótulos da Cervejaria Davok quando fiz um trabalho na Argentina em maio desse ano. Desde então quis conhecer sua fábrica, mas quando planejei a viagem imaginei que ela seria a única no meio artesanal local. Estava parcialmente certo, mas consegui achar umas coisas diferentes que vou dividir com vocês agora.

Chopeira da Cervejaria Davok - Foto: Gustavo Renha


Logo quando cheguei reservei a noite para conhecer o pub cervejeiro que era o mais badalado pelos blogs e sites do meio, o famoso THE SHANNON IRISH PUB. Assim que entrei logo me senti em um pedacinho da Inglaterra. Madeira, pints, torneiras, um atendimento mais “formal”. O SHANNON tem dois andares, televisão que passa jogos e telejornais, e em alguns dias da semana tem shows de música. No dia que fui ia ter um DJ mais tarde no primeiro andar, porém não fiquei pra ver, portanto não sei se é bom ou ruim. Mas enfim, sentei no andar de cima e logo pedi a carta de cervejas. Artesanal local só tinham Davok e Mastra (e em quase todos os outros estabelecimentos que eu vou falar, também) e uma pequena seleção de importadas. Guinness, Löwenbräu, Corona, Negra Modelo e algumas outras, faziam parte da seleção. Comecei com a clássica Löwenbräu para relembrar do meu batismo cervejeiro, porque foi uma das primeiras cervejas que conheci quando descobri esse nosso mundo (que no Brasil infelizmente não encontramos mais). O bar estava lotado de brasileiros, pois naquele dia teve a final da Libertadores, com o Atlético Mineiro campeão, e como tal, todos felizes bebendo suas cervejas gelaaaaaadas. Pedi minha Davok IPA para matar as saudades, mas não dei sorte. Talvez por algum problema de higienização nas torneiras ou má conservação do chopp, sei lá, estava bem diferente do que eu esperava. Uma pena, mas ao mesmo tempo aumentou minha vontade de procura-la em outro lugar. Pedi o famoso chivito para comer, que é um sanduíche com bacon, batata frita e mais um monte de coisas, uma especialidade local, e aquilo era bom demais! Talvez comer esse treco todos os dias seja a explicação dos 4 kg que ganhei... Enfim, o bar é maneiro, preço justo, com certeza vale a visita, porém eu esperava mais.

Foto: Hoverfish (Wikimedia Commons)


No dia seguinte fui almoçar na famosa PARRILLA DEL SOLÍS, que fica exatamente ao lado do SHANNON, bem pertinho do Teatro Solís. Que carne! Comida sensacional, uma das melhores carnes que comi lá, atendimento excelente, um restaurante alto nível com um preço honesto, não é barato, mas também não é caro. Eis que para a minha surpresa perguntei se tinha cervejas artesanais lá e a garçonete me disse que local só tinham Zillertal e cia., mas que tinham algumas importadas. Na verdade uma cartinha com uns doze rótulos importados e entre eles a belga Duvel, que pedi na mesma hora que vi. Pode não ser nada demais isso, mas para mim cerveja tem tudo a ver com momento e naquela hora, no Uruguai, comer uma carne extramente maravilhosa com uma Duvel, foi inesquecível! Recomendo muito, mas não deixem de provar também as entradinhas (presunto de Parma a preço de banana!).

Foto: espiandopelomundo.blogspot.com.br 


No sábado, como eu já tinha combinado antes através de mails, fui conhecer a fábrica da CERVEJARIA DAVOK. Naquele dia estava rolando um curso de produção caseira e me convidaram para participar. Fica bem no Centro, bem fácil de chegar e não tem letreiro nem nada parecido. Uma casa relativamente grande que virou uma cervejaria. Fui recebido pelo amigo Alejandro, proprietário e cervejeiro da fábrica, que me recebeu com toda atenção possível. Mostrou a cervejaria, contou orgulhoso as histórias de como ela nasceu e bebemos diversas cervejas dele juntos, nos intervalos do curso de produção. Tive o prazer de degustar uma Barleywine que estava maturando lá há dois anos (putz, que cerveja!). O tempo inteiro ele mostrava felicidade em falar da cultura cervejeira brasileira, onde fez questão de falar o quanto admira o trabalho de cervejeiros como o Samuel, da Bodebrown, e o sommelier Paulo Feijão, da Dama Bier. Sinal que temos gostos parecidos, pois também tenho muito apreço por esses profissionais. Logo depois provei a American IPA dele, que eu já conhecia, mas estava curioso para provar ali na hora, fresquinha, diretamente da “teta da vaca”. Não devia ter feito isso, pois eu parecia uma criança na Disney! Que cerveja, lúpulo explodindo, equilíbrio perfeito. Se pudesse traria uns quatro growlers para o Brasil! No meu gosto pessoal foi a melhor cerveja que bebi na viagem. Também pude provar sua nova receita, uma Imperial IPA, porém ainda está em testes e vai passar por ajustes. No final tive o prazer de contar para a turma de alunos do curso um pouco do que está acontecendo no Brasil, sobre a nossa cultura cervejeira e todos ficaram surpresos e animados a vir conhecer. Infelizmente por motivos operacionais e tributários, nem tão cedo a DAVOK virá ao Brasil, mas ele disse que se dependesse da vontade dele com certeza viria. Se você for ao Uruguai tem que ir lá! Fácil acesso, só mandar um mail e ver se tem espaço na agenda da fábrica, recomendo muito. Pedi dicas de bares e ele me indicou dois que são os seguintes na minha jornada.

Fermentadores da Cervejaria Davok - Foto: Gustavo Renha


No outro dia fui ao BURLESQUE. Fica um pouquinho mais longe, na região de Pocitos, mas nada que 25 minutos de ônibus a 20 pesos uruguaios (+- 2 reais), resolva. Imaginei logo que o Alejandro tinha me recomendado o bar porque tinha as cervejas dele na torneira, nada mais do que a velha prática da amizade. Para a minha sorte, me enganei, entrei no bar e fiquei bobo. Grande a beça, todo no estilo pub inglês, com a maior variedade de cervejas especiais da cidade, uma grande gama de destilados, decoração muito maneira, atendimento perfeito, enfim, tudo que eu queria encontrar. Cervejas belgas, irlandesas, inglesas, alemãs, locais, a geladeira tava bombando. Pedi uma Davok IPA para começar e logo depois caí para as inglesas. Bebi uma Fullers Golden Pride acompanhada de um chivito da casa, e depois uma Fullers London Porter, foi perfeito. Foi o meu bar favorito lá, recomendo demais, e só não voltei todos os dias porque vinha embora no dia seguinte.

Foto: burlesque.com.uy


Fui a pé, feliz da vida, a alguns quarteirões dali conhecer o também recomendado GALLAGHERS. Cheguei lá e estava lotado, não dava pra andar, lembrou muito os pubs de NY que tive o prazer de conhecer no início do ano. Percebi que ali tinha um clima diferente, era uma espécie de bar “zona sul”, onde mulheres bonitas e os caras mais ricos da cidade iam fazer sua “pré-night”. Mas o legal era a diversidade, porque olhava em umas mesas do canto e tinham casais de idosos jantando e bebendo cervejinhas. Não fiquei muito tempo, pois não estava no clima de ficar em pé, apertado e tal, depois de ter vindo de um bar tão maneiro como o BURLESQUE. Mas o GALLAGHERS é supermaneiro, bem decorado com jogos de dardo e outras coisas típicas de pubs, tem uma excelente variedade de cervejas locais, inglesas, alemãs e encontrei algumas belgas também. Bebi uma Paulaner e fui embora. Recomendo muito, mas chegue cedo para não ficar em pé como eu.

Foto: gallaghersmvd.com


No último dia, antes de vir embora, perguntei para a galera local e me recomendaram conhecer o MERCADO AGRÍCOLA (MAM). Não tinha nada para fazer, então fui lá ver. Trata-se de um mercadão popular, recém-reformado, com vários boxes de diversas coisas diferentes. Restaurantes, lanchonetes, mercadinhos, açougue, casas de câmbio, lojas de suvenir, tem de tudo lá dentro, maneiro demais! Almocei em uma Parrilla lá e quando olhei pra frente tinha um boxe da CHOPERIA MASTRA. Fui lá provar alguma coisa, embora já tivesse degustado no Brasil em 2011 e não tivesse gostado muito. Obviamente que lá é muito mais fresquinha, estava realmente bem diferente do que eu havia conhecido anos atrás e foi ótimo para tirar o preconceito que tinha dela. Bebi só uma, a Pilsen, (aliás, bem honesta) porque já estava na hora de partir. O boxe é bem diferente, diversas torneiras, uma pequena variedade de cervejas da fábrica, um bom atendimento e um preço bem barato. Realmente uma excelente saideira, vale a visita ao mercado todo e à CHOPERIA MASTRA.

Boxe da Choperia Mastra no MAM - Foto: Gustavo Renha


E para finalizar não tem como falar do Uruguai e não falar das suas carnes e lindas cidades. Não deixem de conhecer as churrascarias dentro do Mercado Del Puerto, de visitar a Colonia Del Sacramento, que tem um brewpub que não consegui ir e de visitar Punta Del Leste. Todas as duas cidades você pode visitar em excursões de um dia, que existem em diversas agências de turismo de Montevidéu.

Espero que gostem e bebam uma por mim!

Gustavo Renha
Sommelier de cervejas
gustavorenha@gmail.com – (21) 7813-4900

Endereços:
CERVEJARIA DAVOK – Aquiles Lanza, 1131.
BURLESQUE – Luis A. de Herrera, 1136, Pocitos.
THE SHANNON IRISH PUB – Bartolomé Mitre, 1318, Ciudad Vieja.
GALLAGHERS – Pagola 3233, esq. 26 de março, Pocitos.
PARRILLA DEL SOLIS - Bartolomé Mitre, 1306, Ciudad Vieja.
CHOPERIA MASTRA (MERCADO AGRÍCOLA) – Joseph L. Terra, 2200.