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terça-feira, 17 de setembro de 2013

LA AMARA VITA*

*A amarga vida

De doce já basta a vida. A frase elaborada pelos criadores da Cervejaria Seasons está estampada no rótulo de sua cerveja mais famosa, a Green Cow IPA. Uma das American IPAs mais deliciosamente amargas fabricadas no Brasil, a cerveja da “vaca verde” trouxe essa reinterpretação da popular frase para repassar a todos sua ode e amor ao lúpulo, o grande responsável em trazer o amargor às cervejas. Hoje em dia cada vez mais cervejarias brasileiras investem em cervejas mais lupuladas e amargas, a fim de agradar ou fomentar um público em crescimento, os chamados lupulomaníacos. Muitas dessas cervejas, dependendo do estilo, podem entrar também na categoria das Extreme Beers. Além de bastante lúpulo essas também devem ter uma boa base de maltes, a fim de suportar e quase equilibrar todo esse amargor, apresentar algumas notas doces e contribuir para um teor alcoólico mais alto.

rótulo da Seasons Green Cow IPA e sua frase: de doce já basta a vida


A Noi Amara é uma das mais novas criações a entrar nesse rol de cervejas bem lupuladas. Do estilo Imperial/Double IPA ela possui 100 IBUs (unidades de amargor) e 10,5% de teor alcóolico. Na sua receita foram usadas cinco variedades de maltes e dois tipos de lúpulos, o norte americano Summit (durante a fervura) e o australiano Galaxy (na etapa do dry hopping). Os responsáveis pela sua criação foram o famoso cervejeiro carioca Leonardo Botto e o mestre-cervejeiro da Cervejaria Noi, Gilmar Gutbrodt. A ideia da cervejaria é lançar todo ano ao menos uma nova receita. A próxima terá em torno de 14% de teor alcoólico, mas com o estilo ainda mantido a sete chaves. Antes disso teremos ainda uma outra boa novidade, a cerveja München Hell do Leonardo Botto. Antes fabricada pela Cervejaria Röter (Barra do Piraí/RJ) e sumida já algum tempo, ela será agora produzida na Noi em comemoração às festividades da Oktoberfest. Dentro em breve a teremos disponível novamente no mercado.



Três semanas atrás foi realizado um evento gastronômico de cervejas Noi harmonizadas com os pratos da casa. A harmonização foi comandada pelo sommelier de cervejas José Raimundo Padilha. Dentre variados pratos e cervejas escolhidas, a última selecionada para fechar a harmonização foi a Amara. E não apenas combinando com um tipo de comida, mas com o prato principal e a sobremesa. Batizado pelo Padilha de Double Pairing (harmonização dupla), a ideia foi mostrar a versatilidade que a cerveja e o estilo ofereciam para a gastronomia ao harmonizar tanto com comidas salgadas quanto pratos doces. 

Noi Amara + Fran Rack de javali e chutney de damasco

Noi Amara + Key Lime 


Tive a oportunidade de conseguir uma amostra da garrafa da Amara antes de ser lançada. Essa versão que provei em casa não foi pasteurizada, portanto está mais semelhante com a versão servida on tap do que estaria a versão engarrafada, ainda a ser lançada. Segue abaixo minhas impressões sobre ela:

Noi Amara - Imperial/Double IPA - 10,5% ABV
Aparência cobre intensa a avermelhada, límpida e até brilhante.
Espuma de cor bege, média formação, boa criação de bolhas (cremosa), alta retenção, queda lenta que sujou bem os lados.
Aroma lupulado com média a média-alta intensidade e muito fresca. Notas frutadas que lembraram cítrico de maracujá e grapefruit, floral bastante perfumado, condimentado puxado para o herbal que remeteu um pouco a grama e um fundo resinoso de pinho bem suculento. O álcool monstruoso foi muito bem inserido e ficou imperceptível. O dulçor dos maltes veio bastante encoberto e com percepção pouco aparente. Mas notas carameladas e até tostadas apareceram quando esquentou mais, graças a lupulagem que também assentou um pouco.
Sabor começou frutado com as notas cítricas já antevistas no aroma. Seguiu com o amargor aparecendo como uma pancada, bem agressivo e atraindo notas condimentadas puxadas para o herbal e o picante/temperado. Mais baixas vieram notas florais e resinosas bem alinhadas, certeiras. Sensação tostada que com o frutado virou uma laranja queimada. Antes de terminar o gole, o amargor perdeu um pouco a potência e o frutado cítrico retornou mais.
Corpo médio-alto e cremoso. Carbonatação média e crocante. Álcool aparente que surgiu misturado com o amargor e trouxe sensação acalentadora.
Final seco. Retrogosto amargo, herbal e com persistência de mato. Leve álcool quente.

O aroma está irrepreensível, fresco e bastante intenso. A persistência do amargor poderia ter sido um pouco mais domada para ficar mais afiada. Agradará em cheio aos lupulomaníacos por ser amarga até doer (seu nome não é em vão), chegando ao ponto de até estes pedirem arrego. Cerveja para os fortes.


O registro da cerveja junto ao MAPA saiu semana passada. Quem for de Niterói já pode apreciá-la no bar da fábrica, onde está sendo servida desde 6ª feira. Quem mora no Rio pode prova-la no Bar do Botto, plugada na torneira da casa desde o domingo, aliás a ideia é tê-la sempre na casa. Por enquanto ela está disponível nos bares apenas em chope. Já a versão em garrafas de 600 ml vai sair em breve, provavelmente daqui a 15 dias.

Apenas doze barris foram embarilhados na primeira leva e o restante foi para as garrafas. Hoje ao longo do dia foi realizada a segunda brassagem da cerveja na fábrica da Noi, novamente contando com a presença do Leonardo Botto. Nem bem a cerveja saiu e um novo lote já está sendo produzido. É a prova da boa aceitação que a cerveja está recebendo e a certeza que o público mudou, mais afeito ao amargor e talvez um pouco enjoado da mesmice doce do dia-a-dia. De doce já basta a vida, vida longa ao amargor!


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