Páginas

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

30 ANOS, 3 CERVEJAS - "A" BRASILEIRA

No dia 07 de janeiro degustei três cervejas que entrariam com sobras em qualquer ranking das melhores cervejas do mundo. Elas foram as minhas escolhidas para comemorar meus 30 anos de idade. A ideia posterior seria fazer uma postagem individual falando sobre cada uma delas. A promessa acabou sendo cumprida apenas parcialmente, com a postagem sobre a Westvleteren 12. Faltou falar das demais: Goose Island Bourbon County Brand Stout (safra 2007) e Bamberg Biertruppe Vintage nº 1.

A Bourbon County safrada eu deixarei para falar em outra postagem, vamos primeiro falar da Vintage nº 1, que até o momento considero não apenas a melhor cerveja que bebi esse ano, como também a melhor cerveja que já bebi na minha vida.

Tropa da cerveja: André Clemente, Alexandre Bazzo, Eduardo Passarelli e Leonardo Botto - Fonte: bottobier.com.br


O grupo biertruppe (“tropa da cerveja” em alemão) surgiu da união de quatro amigos aficionados por cervejas especiais com vontade de lançar estilos inéditos ou pouco difundidos no mercado brasileiro. Estes entusiastas eram “apenas” grandes especialistas em se tratando de cerveja no Brasil: André Clemente, designer gráfico autor de vários rótulos de cervejas; Alexandre Bazzo, cervejeiro e proprietário da Cervejaria Bamberg, de Votorantim/SP; Eduardo Passarelli, atualmente sócio da filial paulista do Aconchego Carioca; e Leonardo Botto, cervejeiro e agora dono do Botto Bar, no Rio de Janeiro. As ideias dos quatro somadas resultaria em edições limitadas produzidas na Bamberg. Essa parceria rendeu o lançamento de três cervejas: Tcheca, Saint Nicholas e a já comentada, Biertruppe Vintage nº 1. Infelizmente nenhuma delas é mais produzida.

A Tcheca foi o lançamento inaugural do grupo. Do estilo Bohemian Pilsener, a cerveja apresentava 5,4% de teor alcoólico e notas típicas do estilo, principalmente do tradicional lúpulo tcheco Saaz. A escolha partiu da vontade de criar uma cerveja Pilsen que fosse o oposto do propagandeado pelas cervejas de massa. O resultado final foi plenamente satisfatório. Muitos consideraram a melhor opção do estilo disponível no Brasil, incluindo os exemplares importados, alguns chegando avariados por causa do transporte. Tive a felicidade de prová-la quando lançada em 2008, mas confesso que a pouca memória não me permitiu recordar com exatidão sua sensação, do pouco que lembro é que era boa e refrescante.

Em recente ida a São Paulo, numa visita ao bar Aconchego Carioca, pude reencontrá-la apenas visualmente, não no copo. Uma simpática funcionária da casa me mostrou a garrafa que fica decorando a prateleira localizada atrás do balcão onde ficam as chopeiras. Provavelmente estampada como um troféu pelo seu orgulhoso criador, Eduardo Passarelli.

Imagem: bottobier.com.br
A outra produzida em seguida pela tropa foi a Saint Nichollas – já essa eu infelizmente nunca bebi – uma cerveja feita especialmente para o Natal de 2008. A inspiração foram as clássicas Christmas Ales belgas e a escolha do estilo surgiu da escassez de Belgian Blond Ales produzidas no Brasil. Ela possuía 7% de teor alcoólico, adição de açúcar e aveia, além do uso de um blend de cinco cepas de leveduras belgas, das variedades utilizadas em abadias e monastérios trapistas.

O último lançamento deles foi o rótulo que motivou essa postagem. Podemos dizer que foi a mais trabalhosa de todas, mas não apenas por causa da sua produção. A Biertruppe Vintage nº 1 já começou audaciosa por ser uma cerveja maturada em barris. Parte da cerveja maturou por cem dias em barricas de carvalho antes usadas para repousar outras bebidas da marca Salton, como vinho tinto e brandy. Era uma English Barleywine com potentes 9% de ABV graças a um blend de duas leveduras inglesas. Um projeto cercado de acuro e que foi laureado por uma das grandes sumidades do meio cervejeiro mundial, o grande Randy Mosher.





Até aí ocorreu tudo bem, só depois de produzida a cerveja que os problemas começaram. O MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária) de São Paulo não liberou seu registro, pois não aceitavam o uso do nome “vintage” no rótulo. Diferente dos vinhos, por exemplo, eles não concordavam que a cerveja tivesse características que justificassem o uso do termo, principalmente no que tange a data da validade, que obrigatoriamente deveria ser mais curta. Problema parecido com o da Cervejaria Colorado, que na mesma época também sofreu para registrar sua Vintage Black Rapadura. O MAPA implicou com o nome “rapadura”, uma denominação controlada. Os criadores então o tiraram do rótulo, assim como o termo “vintage”, já esperando exigência semelhante à sofrida pela Biertruppe. A cerveja foi rebatizada de Colorado Ithaca, uma homenagem à ilha da obra Odisseia, de Homero, como uma metáfora à luta que tiveram ao registrar a cerveja. Já a Vintage nº 1 não teve a mesma sorte, não conseguiu ser registrada. Sua venda ficou restrita a poucos afortunados, comercializada pelos criadores de forma discreta em selecionados pontos de venda.

A minha eu consegui comprar em janeiro de 2011 na loja Mamãe Bebidas, por 21 reais. O arrependimento foi de não ter comprado uma caixa dela. Quando quis comprar mais já tinha esgotado. Fui paciente e esperei dois anos para prova-la, ciente que a guarda só traria benefícios. Vencida desde 11/06/2011, degustar essa produção que foi feita com tanto acuro e labuta, deixou a tarefa mais emocionante. Emoção que curiosamente foi seguida de frustração, pois esqueci completamente de salvar minha análise sensorial digitada no programa Word. Tive que reescrever tudo de memória. Como num quebra-cabeça com peças perdidas fui juntando parte por parte do que lembrava e as sensações foram mais ou menos essas:

Bamberg Biertruppe Vintage nº 1 - Barleywine - 9% ABV 
Aberta a garrafa o ar impregnou com a explosão de madeira e carvalho. 

Cor castanha escura e fechada. Viscosa e com lágrimas escorrendo nas laterais.
Espuma de baixíssima formação com escassas bolhas disformes (aparência de refrigerante sem gás), retenção efêmera e final sem deixar nem o halo (flat).
Aroma de madeira de carvalho, baunilha e flora encrostada do barril. Ésteres frutados e doces com alta intensidade, suculentos e sem enjoar, como passas, ameixas secas, tâmaras e figo seco. Toque de vinho do Porto com sensação acre e adstringente. Notas intensas de caramelo, toffee, melaço, sensação xaropada. Notas torradas e defumadas, com esfumaçado de tabaco, rapé e cinzas bem leve. Chocolate e cacau bem definidos e café lembrando grãos. Álcool presente com uma leve acetona, pouco agressivo, mas atraente e bem inserido. Leve notas de frutas vermelhas.
Sabor similar ao aroma e também com cítrico e amargo de toranjas. Suculento coco queimado. Sensação apimentada e alcoólica. Sementes secas como nozes, amêndoas e castanhas cozidas.
Corpo sedoso e macio, passeando na boca. Carbonatação nula.
Final seco e alcoólico. Retrogosto doce e amadeirado.

Sensação final foi de uma cerveja com traços de um destilado, como por exemplo, um bom conhaque. Única, extremamente complexa e que certamente agradou plenamente a todos que puderam provar.

Para atiçar ainda mais a vontade dos saudosistas, ano passado alguns membros da trupe postaram nas redes sociais dois barris remanescentes da produção da Vintage nº 1, que ainda repousavam na Cervejaria Bamberg. Resultado de três anos de maturação no carvalho, essa versão não foi comercializada, mas engarrafada apenas para consumo dos criadores com seus amigos.

Resta apenas torcer pelo lançamento futuro de uma Vintage nº 2 e que até lá as resoluções que tratam sobre cerveja estejam mais evoluídas. Torcemos então por um MAPA de mente mais aberta.

2 comentários:

  1. Sacanagem. Babei no meu teclado depois de ler isso =(

    ResponderExcluir
  2. Hansy, se serve de consolou, eu fico triste por não ter comprado uma caixa dela :(

    ResponderExcluir