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sábado, 22 de dezembro de 2012

CERVEJAS EM HOLLYWOOD – CORONA


Série: Dois Homens e Meio (Two and a Half Men)
Sinopse: O personagem principal Charlie Harper (Charlie Sheen), um solteirão com boa vida que vive numa casa na praia, tem um belo carro na garagem e uma grande facilidade de conquistar as mulheres. O seu estilo de vida casual em Malibu é interrompido quando seu irmão, Alan (Jon Cryer), que está no meio de um divórcio, e o seu sobrinho de dez anos, Jake (Angus T. Jones), chegam para morar com ele.



O famoso seriado de comédia Two and a Half Men, transmitido no Brasil via Warner Channel e SBT, teve no personagem Charlie Harper, alter ego personificado de seu intérprete, Charlie Sheen, o principal atrativo e chamariz da série, que perdeu muito com sua saída do elenco, providenciada através da morte do personagem no seriado.

O episódio piloto já nos mostra o tom que se veria ao longo de toda a série, ao menos até o dia de sua saída/morte, com o personagem Charlie, um farrista, mulherengo e beberrão (não necessariamente nessa ordem) que tem sua rotina de solteiro irresponsável interrompida quando recebe a visita de seu irmão Alan, recém-separado da esposa, que junto com seu filho, Jake, acabam se convidando a morar na casa de praia de seu irmão, que tem sua rotina de ricaço, solitário, indolente e bon vivant, abalada.

No fim o próprio Charlie percebe que a presença próxima de sua família, principalmente de seu sobrinho Jake, pode ajuda-lo com as mulheres. Isso fica claro na cena do supermercado em que ele, ao lado de Jake, acaba se passando como pai solteiro e com isso se tornando um atrativo ao sexo feminino. Ou como ele próprio diz ao Jake, “você é melhor que um cachorro”.

Em todos os episódios Charlie está bêbado. Sem preferência pelo tipo de bebida ou local de consumo, seja dentro de casa ou na rua, no pub, ele sempre aparece com um uísque acompanhado de um belo charuto, margueritas que ele próprio faz questão de fazer ou com uma cerveja geralmente consumida direto no bico.  E a primeira bebida que ele aparece consumindo na série, no episódio piloto, é a cerveja Corona.

Para curar sua ressaca, agravada com a estadia forçada de sua família na sua casa, Charlie resolve tomar um suquinho acrescido de Corona. Será que ele estragou o suco?


A Corona Extra é a quarta cerveja mais popular do mundo atualmente. Criada em 1925, essa Lager mexicana, leve e refrescante, típica cerveja de massa, chamou atenção e se tornou famosa através do apelo da imagem de sua inovadora garrafa transparente que quase foi acondicionada da forma tradicional, em garrafas escuras que preservam melhor a cerveja retardando sua oxidação. No fim o marketing prevaleceu e tornou a garrafa icônica. Foi uma das primeiras a terem o rótulo silkado no vidro da garrafa, sem mais a necessidade de rótulo de papel. Mas foi a imagem da fatia de limão colocada no gargalo que correu o mundo, sendo servida dessa forma em muitos bares de alguns países, com isso se tornando a marca emblemática da cerveja, buscando, talvez, semelhanças com outra típica bebida mexicana, a tequila.

Standart American Lager -  4,6% ABV


Para ser bebida direto no gargalo, bem gelada e preferencialmente numa acolhedora e calorosa praia tropical, apesar de não ser a minha cerveja preferida, confesso que ela seria muito convidativa ao clima atual, cairia muito bem nesse verão de dezembro brasileiro. Embora sua maior qualidade e atrativo não seja o líquido em si, mas seu apelo visual, que atire a primeira pedra quem não se rende até hoje às cervejas de massa.

sábado, 15 de dezembro de 2012

SANGUE, SUOR E CERVEJA – 20 ANOS PORCOS CEGOS/BLIND PIGS



O Blind Pigs (ou Porcos Cegos), uma das mais famosas bandas de punk rock/street punk do cenário underground brasileiro, vai comemorar no ano que vem seus 20 anos de existência. Apesar de algumas paradas e comunicados de encerramento ao longo dos anos, a banda retorna dessa vez com a turnê comemorativa Suor, Cerveja e Sangue, fazendo shows nos meses de março, abril e maio, tocando seus clássicos dos 5 discos lançados (e um ao vivo), indo desde a fase do início, mais punk e agressiva, com letras na sua maioria em inglês, até a fase street punk, com a mudança do nome da banda, traduzido para o português, inclusive fazendo músicas somente nesse idioma, mudança de alguns membros e praticando um som mais reto e também coeso, mas mantendo as letras sempre com temas rueiros, de protesto e também diversão, e por que não, falando de cerveja.

E não param por aí. Outra novidade deles será o lançamento do CD Blind Pigs – Demos, com 42 faixas inéditas lançadas 20 anos atrás, dentre demos, covers e gravações em k7. O álbum poderá ser adquirido em separado ou num combo com camiseta e patch da banda.



Além da turnê ano que vem eles lançarão seu novo trabalho de estúdio provavelmente entre os meses de fevereiro e março, mas antes, outra novidade que será exclusiva da turnê, vai ser a venda em vinil colorido do relançamento do disco The Punks Are Alright!, vendido apenas nos shows e com prensagem limitada a 250 cópias de 10 polegadas. O mesmo artista responsável pela arte da capa original do CD foi novamente chamado para fazer a contra capa do vinil, o alemão Maura Kalusky, mas que antes de criar sua arte pediu pra banda citar uma cerveja brasileira, onde a escolhida foi a Caracu.




Como um fã dos Porcos Cegos e não tão fã da Caracu, confesso, inclusive fazia tempos que não a bebia, a degustei e fiz minha análise dessa típica cerveja de boteco, cuja gemada famosa e cheia de “sustança”, Caracu com ovo, é recomendada como um grande fortificante para se começar bem o dia com a corda toda, já que como diz a propaganda, é a cerveja “para quem não come mel, mastiga abelha”.

A Caracu veio com cor castanha escura, quase preta, tonalidade ébano de reflexo castanho claro e fechada contra a luz. Sua espuma levemente marrom veio com boa criação inicial, média retenção, aspecto aerado, granuloso e de bolhas disformes, que deixou sutis sujeiras ao redor da taça, finalizando com uma camada de espessura. O aroma veio com notas caramelizadas e de biscoito doce (waffer) atraindo médio dulçor, notas queimadas de caramelo e um leve tostado, esfumaçado de cinzas. Algum sutil café e borra. Por trás veio um dulçor proeminente de caldo de cana-de-açúcar, algodão doce. O sabor começou com notas acres e adstringentes de café, seguida de doces caramelizados, que em seguida ficaram em segundo plano frente a um médio tostado de tom esfumaçado. Em seguida o dulçor retornou de forma acintosa e trouxe notas de aspartame, cana de açúcar ou algodão doce, perdurando até o fim da golada. O corpo dela veio médio, mas até leve, fácil de tomar. A carbonatação foi alta e borbulhante, crocante. O final dela foi médio-seco e tostado. Retrogosto tostado de grãos/borra de café e fumaça. Essa clássica cerveja brasileira teve uma boa aparência e até interessante aroma, mas que o sabor, apesar do bom início, pecou pelo dulçor acintoso ao longo do gole que a deixou enjoativa, de baixa drinkability, sendo apenas quebrado pelo retrogosto bastante torrado de café e cinzas, que me foi agradável até.

Caracu - Sweet Stout - 5,4% ABV


Faço votos que a turnê Sangue, Suor e Cerveja venha ao Rio e que eu possa, pela terceira vez, assisti-los de perto, com cerveja em punho (seja Caracu ou não) e pogueando bastante na roda punk, saindo do show suado, cheio de hematomas, mas feliz, e por que não bêbado, mandando à m%*#@ essa tediosa sobriedade!

Tediosa sobriedade – Porcos Cegos



Hoje eu tomo todas
Para afogar minha desgraça
Pura ou com gelo
Passatempo nacional

Tenho crédito no buteco da cidade
Maldita seja tediosa sobriedade
Tediosa sobriedade

Pinga ou caipirinha
Cerveja à vontade
Bêbado à tarde
Passatempo nacional

Tenho crédito no buteco da cidade
Maldita seja tediosa sobriedade
Tediosa sobriedade

Porque eu não sou nada
Nessa minha vida
Se é o que me resta
Traz mais uma dessa
Traz mais uma dessa

Tediosa sobriedade
Passatempo nacional
Maldita sanidade
Passatempo nacional
Tediosa sobriedade
Passatempo nacional
No boteco da cidade
Passatempo nacional
Cerveja à vontade
É a nossa realidade

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

AGENDA D'A PERUA: DEZEMBRO/2012


A agenda d’A Perua vem com mais eventos de fim-de-ano, mas fiquem tranquilos que todos ocorrerão bem antes da cabalística data do fim do mundo. Portanto, aproveitem!

05/12 – #DEGUSTWIT
O jornalista e blogueiro Roberto Fonseca faz mais uma de suas degustações de cervejas, via twitcam, ao vivo nessa quarta-feira, às 20h30. Dessa vez a seleção será de cervejas com pegada ácida. O séquito contará com as “ame ou odeie” Sour Ales, como a recém importada Verhaeghe Vichtenaar, e uma safrada de 2004 da Liefmans Goundenband. Será provada também uma Saison com adição de suco azedo de abacaxi, a Peri e Araci, do cervejeiro carioca Ricardo Rosa, ganhadora da medalha de prata no concurso nacional das ACervAs desse ano, na categoria Estilo Livre com ingrediente brasileiro. Para acompanhar a transmissão basta acessar o twitter @blogdobob e clicar no link da twitcam.



08/12 – 1º FESTIVAL PARANAENSE DE CERVEJA
A PROCERVA, Associação das Microcervejarias do Paraná, com pouco mais de um mês vida, tem no 1º Festival Paranaense de Cerveja, o lançamento de sua associação, cuja criação tem o intuito de defender os interesses das micro e pequenas cervejarias da região. Contando com 16 cervejarias participantes e com uma quantidade invejável de diferentes tipos de cervejas, mais de 50 rótulos presentes, os ingressos ainda darão direito a um caneco do festival, resta saber se vazio ou cheio de cerveja, presença de DJ e bandas, sorteio de brindes, além de opções gastronômicas. Quem antecipar a compra dos ingressos, vendidos em vários pontos de venda, ainda ganha descontos. O festival ocorre na Cervejaria Asgard, em Curitiba, dia 08/12 (sábado), das 14h às 22h.





15/12 – CURSO DE CERVEJA ARTESANAL
A Confraria do Marquês já tem nova data para seu curso de cerveja artesanal. Será no dia 15/12, sábado, no Restaurante Atelier, localizado no Centro do Rio de Janeiro. Com duração de 10 horas, o curso inicia com uma breve abordagem teórica sobre a cerveja, seus ingredientes e seus métodos de produção, para em seguida todos botarem a mão na massa e produzirem uma leva de cerveja a ser consumida em data futura. O curso também inclui material didático, coffee breaks, almoço e degustação de cervejas de variados estilos produzidas pela Confraria. O aluno ainda conta com consultoria posterior ao curso.




15/12 – FESTA 1 ANO HOP'N ROLL BEER CLUB
O pub curitibano, que já mostrou seu diferencial ao possuir “apenas” 12 torneiras de chopes, sempre rotativas dentre artesanais brasileiras e importadas on tap, inovou de verdade ao instalar dentro do bar um pequeno aparato de produção cervejeira para aqueles, homebrewers ou iniciantes, que quiserem arriscar na criação da sua própria cerveja. Após iniciada a fermentação e algumas semanas depois, sob os cuidados dos cervejeiros do pub, a pessoa pode retornar para receber e beber sua cerveja pronta. Esse pub tão inventivo vai comemorar 1 ano de existência no dia 15/12, com muito chope e Rock'n Roll, claro! Os primeiros lotes dão direito a uma camiseta mais caneca do evento. Vários chopes artesanais vão rolar na festa, custando a partir de 5 reais a caneca de 500 ml. Bandas covers de Ramones e AC/DC também se apresentarão ao vivo. 



15/12 e 16/12 – EXCURSÃO CERVEJEIRA NITERÓI-BELO HORIZONTE
O sommelier de cerveja, palestrante e morador de Niterói, Gustavo Renha, promove uma excursão cervejeira partindo da cidade sorriso rumo a capital mineira. Com visitas guiadas às cervejarias Falke Bier e Wäls, além da degustação dos chopes das mesmas, a visitação ainda contará com a presença dos respectivos donos, Marco Falcone e Zé Felipe, propagando seus conhecimentos cervejeiros a todos os presentes. Após um descanso no hotel, o passeio dará continuidade com a ida ao pub Stadt Jever, dando direito a um chope gratuito, e uma visita à loja de bebidas Mamãe Bebidas para todos abastecerem seus estoques com o devido desconto. Após a estadia no hotel o retorno para casa terá ainda sorteios de brindes especiais dentro do ônibus durante toda a viagem da volta.



domingo, 2 de dezembro de 2012

FESTIVAL CARIOCA DA CERVEJA ARTESANAL


Há mais de um mês atrás eu presenciei uma festa bem democrática da cerveja brasileira. Digo democrática, pois foi possível, em dois dias de Festival Carioca da Cerveja Artesanal, experimentar cervejas produzidas em todos os âmbitos: industrial, artesanal e caseiro. O Grupo Schincariol, atual Brasil Kirin, estava lá com seus chopes da Eisenbahn. Micro cervejarias de várias regiões do Brasil também levaram suas cervejas. E a cerveja caseira, a grande atração do festival, contou com os mais variados estilos feitos pelos cervejeiros de panela da ACervA Carioca.




Foi possível perceber que a maioria das mais de 1500 pessoas presentes, contabilizadas nos dois dias de festival, já eram iniciadas no mundo das cervejas ditas especiais, ex-reféns há tempos da bolha da massificação cervejeira. Claro que muita cerveja inusitada, seja no uso de ingredientes não usuais ou técnicas cheias de invencionices, foi inédita a muitos, mas a maioria que estava ali não esperava encontrar apenas dois tipos de cerveja, a clara e a escura, sabiam que sairiam de lá com um leque de cores, aromas e sabores.

Maracujipa - American India Pale Ale - 7,5% ABV 

HI 5 Black IPA - Black India Pale Ale - 6,2% ABV

Jeffrey Niña - Witbier - 5,3% ABV

Invicta India Black Ale - Black India Pale Ale - 7% ABV


Aromas e sabores deliciosos também puderam ser conferidos pelas comidas presentes no festival que contou com o Aconchego Carioca presente com seu mais copiado acepipe, o bolinho de feijoada. Os ogros do Programa Ogrogastronomia foram com o seu famigerado e grosseiro chili burguer. A Casa do Alemão com seu croquete impossível-comer-um-só e os cookies do Monster Cookie, um docinho para baixar a glicose, também botaram as caras.

Outro sentido também foi explorado e o ouvido foi atendido com boa música. No sábado foi o blues da banda Blues Etílicos que tocou ao vivo, já no domingo uma roda de samba alegrou a todos na sede do Cordão do Bola Preta, na Lapa. Boa música comandada por DJ também rolou nas pick-ups durante todo o festival, com clássicos da música brasileira, rock n’roll e demais vertentes.









Muito esperado pelos membros da ACervA Carioca, de forma ansiosa e também com um pouco de tensão, foi o resultado do concurso interno que elegeu as melhores cervejas do Estilo Belgian IPA e do Estilo Livre, feitas pelos cervejeiros caseiros. No sábado, ao vivo, foi divulgado o resultado dos três finalistas de cada estilo e foi emocionante ver os acervianos subirem ao palco, a fim de receberem suas premiações, ouvirmos seus discursos e os reverenciarmos com calorosos aplausos e gritos de congratulações.

E terminados os dois dias de festival eu ainda pude prorrogá-lo um pouquinho graças as doações de algumas cervejas finalistas do concurso onde seus produtores me cederam de forma gentil e gratuita as suas crias, e pude degusta-las com calma e atestar seus méritos de verdadeiras campeãs.

ESTILO BELGIAN IPA:

2º lugar: Rafael Bertges, Caio Delgaudio e Tito Lechuga – Oceânica Belgian IPA.

Os cervejeiros da Cervejaria Oceânica, de Niterói, usaram como base uma cerveja do estilo Tripel para criarem sua Belgian IPA. Como não existe um guia de estilos que defina de forma peremptória o estilo, cada um tem liberdade de se guiar como bem queira, contanto que os carros-chefes do estilo sejam a lupulagem, independente da origem, e o fermento belga. No caso da vice-campeã do concurso, a lupulagem recebeu lúpulos nobres europeus e americanos, uso de açúcar mascavo para secura e cor, e três versões de fermentação, uma com Abbey Ale (a escolhida pro concurso do festival), outra com esse mesmo fermento + suco de abacaxi e outra com o fermento Strong Ale + suco de abacaxi. A versão que eu pude provar foi a mesma do concurso:

A Oceânica Belgian IPA veio com cor âmbar e brilhante, com tons dourados contra a luz, turbidez a frio e ligeira opacidade. A espuma marfim coroou com um formoso creme inicial, disforme e aerado, que teve uma média-alta estabilidade, boa consistência final quando caiu deixando rastros de nuvens e finalizou com uma camada perene. O aroma veio com bastante esterificação de frutas amarelas e cítricas (abacaxi?), além de fenóis condimentados e picantes, sugestões de cravos, canela em pau, mas principalmente gengibre, que trouxe certa picardia. A lupulagem trouxe um elegante floral, que ornou bem o conjunto e valorizou o buquê. Algum frutado cítrico (leve maracujá) e toques gramíneos (capim, cidreira) também provenientes da lupulagem, mas sem agressividade, pacíficos uns com os outros. A maltagem, embora em segundo plano, veio bem inserida e com destaque. Notas de caramelo e açúcar branco, mas também mel e bem ao fundo um agradável guaraná. Leve cheiro de álcool, mas longe de ser repelente. O resultado final foi de que já cheirei essa cerveja antes, seria alguma semelhança com a belga Urthel Hop-It, por exemplo? O sabor começou bem fenólico. Notas de cravo e gengibre iniciais, seguidas por um picante e um amargor dominante de ervas, como um boldo ou uma cidreira, por exemplo, que persistiram no gole e se caracterizaram pela urgente e aniquiladora secura – mas que nem por isso deixou de ser apetitosa, suculenta. A adstringência acompanhou de perto a degustação junto com gosto de uvas com casca e semente. Também acidez e amargor de casca de limão siciliano. Picardia do álcool, aqui bem mais presente que no aroma, inclusive sugerindo álcoois superiores. Por trás, ou melhor, abaixo dessas notas vem mais algum frutado, resquícios das leveduras e lúpulos, um floral com certo destaque como um mastigar de pétalas, e notas maltadas de caramelo, pão e leve mel. O corpo dela foi médio, com alguma densidade e também maciez. A carbonatação foi bem presente, levemente frisante e com boa presença de bolhas. O final dela foi muito seco, adstringente e alcoólico que desceram queimando a garganta, que voltou no retrogosto com um amargor verde e algo de bagaço de uvas. O aroma é equilibrado chegando a ser singelo, inclusive lembrando uma referência do estilo, a Urthel Hop-It. Já o sabor partiu mais pra ignorância, agradando aos apreciadores de extremos que até aí se lambuzam e vêem algo terno e belo.

Oceânica Belgian IPA - Belgian India Pale Ale -  8,5% ABV


1º lugar: Bruno Viola e Pedro Macarrão – Altvioou IPA.

Os acervianos da Regional Capital garantiram o primeiro lugar graças a uma receita que abusou da maltagem e da lupulagem. Onde a maioria prefere usar muitas vezes apenas um tipo de malte para criar sua Belgian IPA, a fim do destaque ficar por conta dos lúpulos e leveduras, a campeã do concurso usou 9 tipos de maltes, dentre básicos e inclusos também centeio, trigo e aveia. E a lupulagem também abusou de lúpulos nobres europeus e americanos, inclusive com dry hopping de Amarillo. A receita levou açúcar e a fermentação foi de Abbey Ale. A lupulagem conseguiu um ótimo destaque confrontando bem com a geralmente indomável levedura belga. Com méritos inquestionáveis, a Altivoou, que significa Viola em holandês – que é o sobrenome de um dos produtores –, foi muito merecedora de ter saído consagrada como a BIPA campeã do festival:

A Altivoou IPA veio com uma tonalidade de cor entre o rubi e um vinho tinto, um grená, um quase marrom, com reflexos acobreados contra a luz e aspecto fechado. Algumas bolhas em subida. A espuma veio magnânima no seu esplendor e acinte. Criação alta e cremosa, compacta, fofa e de tom levemente bronzeado. Caiu com cautela, grudou nas paredes, mas sem fixar muita sujeira nas laterais da taça. Boa estabilidade ao assentar. O aroma desprendeu uma lupulagem alta, rica e intensa. Frutado suculento e com notas cítricas, de frutas amarelas e tropicais, como laranja, mexerica, grapefruit, maracujá, nêspera e carambolas. Um buquê floral, fresco e elegante. De fundo uma picardia gramínea com tons temperados e herbais. Leve sensação alcoólica, mas rapidamente dissipada pela alta lupulagem. Maltagem foi encoberta e com sugestão de leve grãos, mais forte o açúcar e a rapadura, alguma caramelização, e sutil, mas persistente, tostagem. Ainda no fim um leve frutado de sementes de mamão, bagaço e folhas de uvas. Sensação final de um frutado de grande complexidade aromática e viciante de cheirar! O sabor começou com um dulçor que foi se intensificando junto com uma sensação alcoólica na boca. Frutas vermelhas e silvestres (cerejas, framboesas, morangos) foram assomando junto com alguma picardia mentolada. A lupulagem surgiu ceifando um pouco essas sensações e atraiu uma gama de frutas frescas e cheias de citricidade e algum azedume. Toques florais e gramíneos, capim, verdes, mentolados, herbais foram persistentes do meio até o fim da golada, onde ainda agregaram notas picantes, amargas e que também deram algum frescor à boca, como a ação de um flúor nas gengivas. Notas terrosas de barro e casca de árvores semelhantes a uma Saison/Farmhouse Ale. Sensações meio rústicas e levemente defumadas que me lembraram o uso de centeio. Maltagem ainda com pouco acinte, de leve destaque para açúcar e a rapadura, e uma mais forte e suculenta bala de caramelo, toffee, no background. Sabores de vinho tinto, uvas roxas, agregados à sensação adstringente dos taninos. O álcool é presente, mas não causador de discórdias no conjunto, acalentador sim, alguma sensação de álcoois superiores, mas complexo também. Corpo cheio e médio-alto, alguma coisa de grossura, mas sem alta licorosidade. Carbonatação alta e que deixou uma sensação frisante e de pinicar a língua. O final dela foi bastante seco e de resquícios doces e alcoólicos. Retrogosto amargo e adstringente de repuxar muita a boca e fazer uma bela careta. Excelente Belgian IPA, com uma drinkability mediana, mas condizente com a base do estilo (Tripel ou Strong Golden Ale, por exemplo), esta atingiu um nível tão alto de complexidade que lembrou uma Saison também.

Altivoou IPA - Belgian India Pale Ale - 8,2% ABV


ESTILO LIVRE:

3º lugar: Rafael Bertges, Caio Delgaudio e Tito Lechuga – Oceânica Black Experience.

A Oceânica voltou ao pódio no Estilo Livre e faturou um 3º lugar com sua cerveja do estilo India Black Ale, feita com maltes alemães e lúpulos americanos. Utilizou-se de técnicas como lupulagem de primeiro mosto com Cascade e dry-hopping com Amarillo. Usou açúcar demerara na receita e 3 tipos de fermento.

A Oceânica Black Experience apresentou cor castanho escuro com tonalidade parecida com um café forte, aspecto fechado e de pouco percepção de clareza contra a luz. A espuma marrom teve uma alta formação, onde criou três dedos de tamanho inicial, aspecto teso, cremoso e fofo, para ao começar a cair de forma sonolenta deixar algumas bolhas disformes e sujar muito as laterais, finalizando com uma camada perene.  O aroma trouxe uma vigorosa e intensa lupulagem, que evocou muitas frutas frescas e cítricas (maracujá, laranja e limão siciliano), entremeada por uma também intensa, porém menos protagonista, maltagem de torrefação, que trouxe uma tosta que sugeriu suculência, e outras notas de chocolate, cacau, biscoito doce (waffer), caramelo, toffee, aveia e rapadura/açúcar mascavo, denotando certa riqueza e complexidade dos maltes. Apesar de intensas e equilibradas, as notas lupuladas e maltadas, não eram uma agressão ao nariz devido um possível exagero, mas ao contrário, cerveja muito aromática e harmoniosa, que ainda contribuiu com uma elegância floral ao fundo, ainda mais levantada devido ao álcool imperceptível. Conforme ela esquentou uma leve sugestão de pimentas brancas também foi perceptível. O sabor veio com uma lupulagem que pareceu dominante por um primeiro momento, com suas notas amargas e cheias de óleo, resina, e de certa forma contida, por um certo momento, pela torrefação, que continuou com o tom amargo, mas dessa vez evocando o defumado de cinzas, um esfumaçado. Este perde caminho com a lupulagem retornando com dulçores das frutas cítricas e tropicais, seguidas de perto pelo gramíneo cheio de ervas temperadas, capim e algo rústico/terroso. Esse amargor perdurou e persistiu até o fim do gole. Um toque de pimentas e ervas explodiu na boca, emparelhadas por um maior ardor mentolado e flúor, trazendo também certo frescor. O álcool continuou muito bem inserido no conjunto, nada notado. O corpo dela foi médio, não tão pesado, nem licoroso. A carbonatação veio média e com algumas borbulhas que deram possibilidade de um mastigar crocante no gole. O final dela perdurou por um bom tempo na boca o ardor de pimentas e o frescor de menta/flúor, como que esterilizando, finalizando com um retrogosto amargo, verde de capim, enrodilhado por reflexos da torra, esfumaçado. Um aroma intenso, equilibrado, mas também delicado, já o sabor foi extremo e deliciosamente agressivo. Mensagem final: aos lupulomaníacos, com amor.

Oceânica Black Experience - Black India Pale Ale - 7,3% ABV


1º lugar: Cazé Napier – Blackoutstout

O grande figura Cazé, acerviano de Niterói, mas também um cidadão norte-americano, garantiu o primeiríssimo lugar com sua Blackoutstout, uma cerveja do estilo Russian Imperial Stout, que abusou da maltagem com 13 tipos de maltes, lupulagem com lúpulos alemães, americanos e dry hopping com flores de Amarillo. Ela também passou por adição de dark chips de carvalho embebidos em vodka russa Stolichnaya por 72 horas. O investimento numa grande quantidade e variedade de insumos, além da paciência de uma longa maturação deram frutos positivos nessa merecedora campeã do estilo livre.

A Blackoutstout veio como um piche, negra na cor e densa oleosa, no aspecto. Totalmente fechada onde não se enxergou do outro lado por nada. A espuma marrom teve uma criação alta, esplêndida, magnânima, imperativa. Alta retenção, com estabilidade longa e caída extremamente parcimoniosa, lerda mesmo, com seu aspecto cremoso e rijo, compacto, que caiu sujando muito os lados com camadas espiraladas de renda belga. O aroma trouxe uma carga de alta lupulagem americana e que graças ao assertivo dry-hopping de lúpulos em flor Amarillo, ainda trouxe uma evocação bem fresca e nova, como se recém envasada a garrafa. Tons de frutas cítricas, de casca amarela, frutas tropicais, muita laranja, maracujá, melão, cajá, grapefruit, nêspera, carambola... uma suculenta salada de frutas. A maltagem, quase em conluio com os lúpulos, mas ainda assim um pouco atrasada, surgiu em seguida, após os aromas de lúpulos, o destaque inicial, assentarem, e veio com dulçores de biscoito doce tipo waffer, muito chocolate puro cacau, um caramelizado e coco queimados, rapaduras. A torrefação atraiu notas esfumaçadas de lenha queimada, cinzas. Tons de tabaco e percepção de madeira velha, ares de envelhecimento, graças aos chips de “dark oak” embebidos em vodka, que atraíram baunilha e ares de bebida destilada. Notas picantes e licorosas provavelmente advindas do álcool, muito embora esse fosse muito controlado e quase imperceptível. Alguma leve e sugestionada esterificação de ameixas secas e pretas. Aroma complexo, rico. O sabor começou com essa carga incial de frutas, vitamina C pura, fresca e in natura. Notas de frutas cítricas e tropicais, suculentas, como recém colhidas do pé de árvore e mastigadas. Notas herbais, de resina e tons amargos fortes, temperados e picantes também e que persistiram até o final do gole. Depois veio o amargor do torrado e um apetitoso chocolate amargo puro cacau, café preto que lembrou grãos e borra. A torra trouxe notas de tabaco, cinzas, um pouco de defumação, ainda uma caramelização e rapadura queimadas. Bastante baunilha e notas amadeiradas. Semelhanças com um vinho do Porto, presença de taninos, sensação adstringente. A esterificação de frutas escuras surgiu bem evocada, com destaque para muita ameixa. Complexidade que remeteu a um bom conhaque. O álcool foi muito bem inserido e só se fez presente com um leve acalentar, como uma colcha sobreposta. O corpo foi denso, licoroso, como se partículas nadassem no líquido tamanha grossura de um milk-shake. A carbonatação veio média-baixa, pouco destacada no conjunto. O final dela veio seco e de residual agridoce. O retrogosto foi bem amargo, verde e temperado, e doce de chocolates. Provavelmente a melhor cerveja caseira que já bebi até hoje e uma das melhores no geral.

Blackoutstout - Russian Imperial Stout - 8,5% ABV


Agradeço imensamente ao Cazé Napier, que antes mesmo de premiada no festival, tinha me cedido uma garrafa para que eu pudesse analisar com parcimônia, já que eu antevia um excelente exemplar, e por que não futura campeã, do meu estilo preferido de cerveja, Russian Imperial Stout. Um muito obrigado também ao Bruno Viola que eu não conhecia, meu primeiro contato foi no festival, mas que não se esquivou em me ceder uma garrafa de sua campeã cerveja. E também um agradecimento ao Rafael Bertges e suas Oceânicas, que me cedeu duas garrafinhas e por quem eu tenho apreço por ser um dos cervejeiros que mais entendem sobre todas as etapas de produção e todos os seus meandros.

Cerveja caseira: vocês estão fazendo isso (muito) certo!