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domingo, 2 de dezembro de 2012

FESTIVAL CARIOCA DA CERVEJA ARTESANAL


Há mais de um mês atrás eu presenciei uma festa bem democrática da cerveja brasileira. Digo democrática, pois foi possível, em dois dias de Festival Carioca da Cerveja Artesanal, experimentar cervejas produzidas em todos os âmbitos: industrial, artesanal e caseiro. O Grupo Schincariol, atual Brasil Kirin, estava lá com seus chopes da Eisenbahn. Micro cervejarias de várias regiões do Brasil também levaram suas cervejas. E a cerveja caseira, a grande atração do festival, contou com os mais variados estilos feitos pelos cervejeiros de panela da ACervA Carioca.




Foi possível perceber que a maioria das mais de 1500 pessoas presentes, contabilizadas nos dois dias de festival, já eram iniciadas no mundo das cervejas ditas especiais, ex-reféns há tempos da bolha da massificação cervejeira. Claro que muita cerveja inusitada, seja no uso de ingredientes não usuais ou técnicas cheias de invencionices, foi inédita a muitos, mas a maioria que estava ali não esperava encontrar apenas dois tipos de cerveja, a clara e a escura, sabiam que sairiam de lá com um leque de cores, aromas e sabores.

Maracujipa - American India Pale Ale - 7,5% ABV 

HI 5 Black IPA - Black India Pale Ale - 6,2% ABV

Jeffrey Niña - Witbier - 5,3% ABV

Invicta India Black Ale - Black India Pale Ale - 7% ABV


Aromas e sabores deliciosos também puderam ser conferidos pelas comidas presentes no festival que contou com o Aconchego Carioca presente com seu mais copiado acepipe, o bolinho de feijoada. Os ogros do Programa Ogrogastronomia foram com o seu famigerado e grosseiro chili burguer. A Casa do Alemão com seu croquete impossível-comer-um-só e os cookies do Monster Cookie, um docinho para baixar a glicose, também botaram as caras.

Outro sentido também foi explorado e o ouvido foi atendido com boa música. No sábado foi o blues da banda Blues Etílicos que tocou ao vivo, já no domingo uma roda de samba alegrou a todos na sede do Cordão do Bola Preta, na Lapa. Boa música comandada por DJ também rolou nas pick-ups durante todo o festival, com clássicos da música brasileira, rock n’roll e demais vertentes.









Muito esperado pelos membros da ACervA Carioca, de forma ansiosa e também com um pouco de tensão, foi o resultado do concurso interno que elegeu as melhores cervejas do Estilo Belgian IPA e do Estilo Livre, feitas pelos cervejeiros caseiros. No sábado, ao vivo, foi divulgado o resultado dos três finalistas de cada estilo e foi emocionante ver os acervianos subirem ao palco, a fim de receberem suas premiações, ouvirmos seus discursos e os reverenciarmos com calorosos aplausos e gritos de congratulações.

E terminados os dois dias de festival eu ainda pude prorrogá-lo um pouquinho graças as doações de algumas cervejas finalistas do concurso onde seus produtores me cederam de forma gentil e gratuita as suas crias, e pude degusta-las com calma e atestar seus méritos de verdadeiras campeãs.

ESTILO BELGIAN IPA:

2º lugar: Rafael Bertges, Caio Delgaudio e Tito Lechuga – Oceânica Belgian IPA.

Os cervejeiros da Cervejaria Oceânica, de Niterói, usaram como base uma cerveja do estilo Tripel para criarem sua Belgian IPA. Como não existe um guia de estilos que defina de forma peremptória o estilo, cada um tem liberdade de se guiar como bem queira, contanto que os carros-chefes do estilo sejam a lupulagem, independente da origem, e o fermento belga. No caso da vice-campeã do concurso, a lupulagem recebeu lúpulos nobres europeus e americanos, uso de açúcar mascavo para secura e cor, e três versões de fermentação, uma com Abbey Ale (a escolhida pro concurso do festival), outra com esse mesmo fermento + suco de abacaxi e outra com o fermento Strong Ale + suco de abacaxi. A versão que eu pude provar foi a mesma do concurso:

A Oceânica Belgian IPA veio com cor âmbar e brilhante, com tons dourados contra a luz, turbidez a frio e ligeira opacidade. A espuma marfim coroou com um formoso creme inicial, disforme e aerado, que teve uma média-alta estabilidade, boa consistência final quando caiu deixando rastros de nuvens e finalizou com uma camada perene. O aroma veio com bastante esterificação de frutas amarelas e cítricas (abacaxi?), além de fenóis condimentados e picantes, sugestões de cravos, canela em pau, mas principalmente gengibre, que trouxe certa picardia. A lupulagem trouxe um elegante floral, que ornou bem o conjunto e valorizou o buquê. Algum frutado cítrico (leve maracujá) e toques gramíneos (capim, cidreira) também provenientes da lupulagem, mas sem agressividade, pacíficos uns com os outros. A maltagem, embora em segundo plano, veio bem inserida e com destaque. Notas de caramelo e açúcar branco, mas também mel e bem ao fundo um agradável guaraná. Leve cheiro de álcool, mas longe de ser repelente. O resultado final foi de que já cheirei essa cerveja antes, seria alguma semelhança com a belga Urthel Hop-It, por exemplo? O sabor começou bem fenólico. Notas de cravo e gengibre iniciais, seguidas por um picante e um amargor dominante de ervas, como um boldo ou uma cidreira, por exemplo, que persistiram no gole e se caracterizaram pela urgente e aniquiladora secura – mas que nem por isso deixou de ser apetitosa, suculenta. A adstringência acompanhou de perto a degustação junto com gosto de uvas com casca e semente. Também acidez e amargor de casca de limão siciliano. Picardia do álcool, aqui bem mais presente que no aroma, inclusive sugerindo álcoois superiores. Por trás, ou melhor, abaixo dessas notas vem mais algum frutado, resquícios das leveduras e lúpulos, um floral com certo destaque como um mastigar de pétalas, e notas maltadas de caramelo, pão e leve mel. O corpo dela foi médio, com alguma densidade e também maciez. A carbonatação foi bem presente, levemente frisante e com boa presença de bolhas. O final dela foi muito seco, adstringente e alcoólico que desceram queimando a garganta, que voltou no retrogosto com um amargor verde e algo de bagaço de uvas. O aroma é equilibrado chegando a ser singelo, inclusive lembrando uma referência do estilo, a Urthel Hop-It. Já o sabor partiu mais pra ignorância, agradando aos apreciadores de extremos que até aí se lambuzam e vêem algo terno e belo.

Oceânica Belgian IPA - Belgian India Pale Ale -  8,5% ABV


1º lugar: Bruno Viola e Pedro Macarrão – Altvioou IPA.

Os acervianos da Regional Capital garantiram o primeiro lugar graças a uma receita que abusou da maltagem e da lupulagem. Onde a maioria prefere usar muitas vezes apenas um tipo de malte para criar sua Belgian IPA, a fim do destaque ficar por conta dos lúpulos e leveduras, a campeã do concurso usou 9 tipos de maltes, dentre básicos e inclusos também centeio, trigo e aveia. E a lupulagem também abusou de lúpulos nobres europeus e americanos, inclusive com dry hopping de Amarillo. A receita levou açúcar e a fermentação foi de Abbey Ale. A lupulagem conseguiu um ótimo destaque confrontando bem com a geralmente indomável levedura belga. Com méritos inquestionáveis, a Altivoou, que significa Viola em holandês – que é o sobrenome de um dos produtores –, foi muito merecedora de ter saído consagrada como a BIPA campeã do festival:

A Altivoou IPA veio com uma tonalidade de cor entre o rubi e um vinho tinto, um grená, um quase marrom, com reflexos acobreados contra a luz e aspecto fechado. Algumas bolhas em subida. A espuma veio magnânima no seu esplendor e acinte. Criação alta e cremosa, compacta, fofa e de tom levemente bronzeado. Caiu com cautela, grudou nas paredes, mas sem fixar muita sujeira nas laterais da taça. Boa estabilidade ao assentar. O aroma desprendeu uma lupulagem alta, rica e intensa. Frutado suculento e com notas cítricas, de frutas amarelas e tropicais, como laranja, mexerica, grapefruit, maracujá, nêspera e carambolas. Um buquê floral, fresco e elegante. De fundo uma picardia gramínea com tons temperados e herbais. Leve sensação alcoólica, mas rapidamente dissipada pela alta lupulagem. Maltagem foi encoberta e com sugestão de leve grãos, mais forte o açúcar e a rapadura, alguma caramelização, e sutil, mas persistente, tostagem. Ainda no fim um leve frutado de sementes de mamão, bagaço e folhas de uvas. Sensação final de um frutado de grande complexidade aromática e viciante de cheirar! O sabor começou com um dulçor que foi se intensificando junto com uma sensação alcoólica na boca. Frutas vermelhas e silvestres (cerejas, framboesas, morangos) foram assomando junto com alguma picardia mentolada. A lupulagem surgiu ceifando um pouco essas sensações e atraiu uma gama de frutas frescas e cheias de citricidade e algum azedume. Toques florais e gramíneos, capim, verdes, mentolados, herbais foram persistentes do meio até o fim da golada, onde ainda agregaram notas picantes, amargas e que também deram algum frescor à boca, como a ação de um flúor nas gengivas. Notas terrosas de barro e casca de árvores semelhantes a uma Saison/Farmhouse Ale. Sensações meio rústicas e levemente defumadas que me lembraram o uso de centeio. Maltagem ainda com pouco acinte, de leve destaque para açúcar e a rapadura, e uma mais forte e suculenta bala de caramelo, toffee, no background. Sabores de vinho tinto, uvas roxas, agregados à sensação adstringente dos taninos. O álcool é presente, mas não causador de discórdias no conjunto, acalentador sim, alguma sensação de álcoois superiores, mas complexo também. Corpo cheio e médio-alto, alguma coisa de grossura, mas sem alta licorosidade. Carbonatação alta e que deixou uma sensação frisante e de pinicar a língua. O final dela foi bastante seco e de resquícios doces e alcoólicos. Retrogosto amargo e adstringente de repuxar muita a boca e fazer uma bela careta. Excelente Belgian IPA, com uma drinkability mediana, mas condizente com a base do estilo (Tripel ou Strong Golden Ale, por exemplo), esta atingiu um nível tão alto de complexidade que lembrou uma Saison também.

Altivoou IPA - Belgian India Pale Ale - 8,2% ABV


ESTILO LIVRE:

3º lugar: Rafael Bertges, Caio Delgaudio e Tito Lechuga – Oceânica Black Experience.

A Oceânica voltou ao pódio no Estilo Livre e faturou um 3º lugar com sua cerveja do estilo India Black Ale, feita com maltes alemães e lúpulos americanos. Utilizou-se de técnicas como lupulagem de primeiro mosto com Cascade e dry-hopping com Amarillo. Usou açúcar demerara na receita e 3 tipos de fermento.

A Oceânica Black Experience apresentou cor castanho escuro com tonalidade parecida com um café forte, aspecto fechado e de pouco percepção de clareza contra a luz. A espuma marrom teve uma alta formação, onde criou três dedos de tamanho inicial, aspecto teso, cremoso e fofo, para ao começar a cair de forma sonolenta deixar algumas bolhas disformes e sujar muito as laterais, finalizando com uma camada perene.  O aroma trouxe uma vigorosa e intensa lupulagem, que evocou muitas frutas frescas e cítricas (maracujá, laranja e limão siciliano), entremeada por uma também intensa, porém menos protagonista, maltagem de torrefação, que trouxe uma tosta que sugeriu suculência, e outras notas de chocolate, cacau, biscoito doce (waffer), caramelo, toffee, aveia e rapadura/açúcar mascavo, denotando certa riqueza e complexidade dos maltes. Apesar de intensas e equilibradas, as notas lupuladas e maltadas, não eram uma agressão ao nariz devido um possível exagero, mas ao contrário, cerveja muito aromática e harmoniosa, que ainda contribuiu com uma elegância floral ao fundo, ainda mais levantada devido ao álcool imperceptível. Conforme ela esquentou uma leve sugestão de pimentas brancas também foi perceptível. O sabor veio com uma lupulagem que pareceu dominante por um primeiro momento, com suas notas amargas e cheias de óleo, resina, e de certa forma contida, por um certo momento, pela torrefação, que continuou com o tom amargo, mas dessa vez evocando o defumado de cinzas, um esfumaçado. Este perde caminho com a lupulagem retornando com dulçores das frutas cítricas e tropicais, seguidas de perto pelo gramíneo cheio de ervas temperadas, capim e algo rústico/terroso. Esse amargor perdurou e persistiu até o fim do gole. Um toque de pimentas e ervas explodiu na boca, emparelhadas por um maior ardor mentolado e flúor, trazendo também certo frescor. O álcool continuou muito bem inserido no conjunto, nada notado. O corpo dela foi médio, não tão pesado, nem licoroso. A carbonatação veio média e com algumas borbulhas que deram possibilidade de um mastigar crocante no gole. O final dela perdurou por um bom tempo na boca o ardor de pimentas e o frescor de menta/flúor, como que esterilizando, finalizando com um retrogosto amargo, verde de capim, enrodilhado por reflexos da torra, esfumaçado. Um aroma intenso, equilibrado, mas também delicado, já o sabor foi extremo e deliciosamente agressivo. Mensagem final: aos lupulomaníacos, com amor.

Oceânica Black Experience - Black India Pale Ale - 7,3% ABV


1º lugar: Cazé Napier – Blackoutstout

O grande figura Cazé, acerviano de Niterói, mas também um cidadão norte-americano, garantiu o primeiríssimo lugar com sua Blackoutstout, uma cerveja do estilo Russian Imperial Stout, que abusou da maltagem com 13 tipos de maltes, lupulagem com lúpulos alemães, americanos e dry hopping com flores de Amarillo. Ela também passou por adição de dark chips de carvalho embebidos em vodka russa Stolichnaya por 72 horas. O investimento numa grande quantidade e variedade de insumos, além da paciência de uma longa maturação deram frutos positivos nessa merecedora campeã do estilo livre.

A Blackoutstout veio como um piche, negra na cor e densa oleosa, no aspecto. Totalmente fechada onde não se enxergou do outro lado por nada. A espuma marrom teve uma criação alta, esplêndida, magnânima, imperativa. Alta retenção, com estabilidade longa e caída extremamente parcimoniosa, lerda mesmo, com seu aspecto cremoso e rijo, compacto, que caiu sujando muito os lados com camadas espiraladas de renda belga. O aroma trouxe uma carga de alta lupulagem americana e que graças ao assertivo dry-hopping de lúpulos em flor Amarillo, ainda trouxe uma evocação bem fresca e nova, como se recém envasada a garrafa. Tons de frutas cítricas, de casca amarela, frutas tropicais, muita laranja, maracujá, melão, cajá, grapefruit, nêspera, carambola... uma suculenta salada de frutas. A maltagem, quase em conluio com os lúpulos, mas ainda assim um pouco atrasada, surgiu em seguida, após os aromas de lúpulos, o destaque inicial, assentarem, e veio com dulçores de biscoito doce tipo waffer, muito chocolate puro cacau, um caramelizado e coco queimados, rapaduras. A torrefação atraiu notas esfumaçadas de lenha queimada, cinzas. Tons de tabaco e percepção de madeira velha, ares de envelhecimento, graças aos chips de “dark oak” embebidos em vodka, que atraíram baunilha e ares de bebida destilada. Notas picantes e licorosas provavelmente advindas do álcool, muito embora esse fosse muito controlado e quase imperceptível. Alguma leve e sugestionada esterificação de ameixas secas e pretas. Aroma complexo, rico. O sabor começou com essa carga incial de frutas, vitamina C pura, fresca e in natura. Notas de frutas cítricas e tropicais, suculentas, como recém colhidas do pé de árvore e mastigadas. Notas herbais, de resina e tons amargos fortes, temperados e picantes também e que persistiram até o final do gole. Depois veio o amargor do torrado e um apetitoso chocolate amargo puro cacau, café preto que lembrou grãos e borra. A torra trouxe notas de tabaco, cinzas, um pouco de defumação, ainda uma caramelização e rapadura queimadas. Bastante baunilha e notas amadeiradas. Semelhanças com um vinho do Porto, presença de taninos, sensação adstringente. A esterificação de frutas escuras surgiu bem evocada, com destaque para muita ameixa. Complexidade que remeteu a um bom conhaque. O álcool foi muito bem inserido e só se fez presente com um leve acalentar, como uma colcha sobreposta. O corpo foi denso, licoroso, como se partículas nadassem no líquido tamanha grossura de um milk-shake. A carbonatação veio média-baixa, pouco destacada no conjunto. O final dela veio seco e de residual agridoce. O retrogosto foi bem amargo, verde e temperado, e doce de chocolates. Provavelmente a melhor cerveja caseira que já bebi até hoje e uma das melhores no geral.

Blackoutstout - Russian Imperial Stout - 8,5% ABV


Agradeço imensamente ao Cazé Napier, que antes mesmo de premiada no festival, tinha me cedido uma garrafa para que eu pudesse analisar com parcimônia, já que eu antevia um excelente exemplar, e por que não futura campeã, do meu estilo preferido de cerveja, Russian Imperial Stout. Um muito obrigado também ao Bruno Viola que eu não conhecia, meu primeiro contato foi no festival, mas que não se esquivou em me ceder uma garrafa de sua campeã cerveja. E também um agradecimento ao Rafael Bertges e suas Oceânicas, que me cedeu duas garrafinhas e por quem eu tenho apreço por ser um dos cervejeiros que mais entendem sobre todas as etapas de produção e todos os seus meandros.

Cerveja caseira: vocês estão fazendo isso (muito) certo!

3 comentários:

  1. Foi com muita alegria que pudemos participar de um evento de tal importância para cultura cervejeira. Fazer cerveja não é só um hobby é uma paixão. E como disse o campeão Cazé: " É feeling p#rr@!!"

    Vida longa a cerveja caseira e vida a longa a Perua.

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  2. Parabéns pelo post Gil!
    Foi um prazer disponibilizar a cerva pra vc!
    Parabéns tb para a galera da Oceânica e ao meu camarada Cazé!

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  3. Parabéns a vocês pelas cervejas!
    E essa frase do Cazé, que infelizmente esqueci de mencionar na postagem, resumiu bem o espírito do festival.

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